Brasil precisa ocupar mais espaços no mercado árabe, diz presidente da Embrapa

18/05/2020
Imagem: Banco de Imagens
Imagem: Banco de Imagens

O investimento em oportunidades, no intercâmbio e na abertura de novos mercados, deve estar entre os principais focos das negociações estratégicas do Brasil voltadas aos interesses do mercado dos países árabes. Segundo Celso Moretti, presidente da Embrapa, ainda há espaços a serem ocupados e o potencial para explorar e atrair investimentos para o País, em áreas como a bioeconomia e a cadeia de proteína animal, requer a adoção de ações mais efetivas por parte dos segmentos brasileiros envolvidos.

Como os países árabes têm uma economia ainda baseada em energia fóssil e o Brasil tem demonstrado forte tendência de crescimento da economia de base biológica, ele aposta ser esta uma das melhores chances para ao desenvolvimento nacional em cooperação com as nações da região. "O Brasil precisa fazer mais e melhor o que já tem sido feito", afirma.

Em evento em 11 de maio, com transmissão pelas redes sociais e a participação de especialistas em agronegócio e representantes das áreas internacionais, sobre a diversificação dos produtos brasileiros no mundo árabe, Moretti anunciou a articulação para a instalação de um escritório da Embrapa em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos, onde a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) já tem representação e é uma das parceiras da Empresa.

Produtos made in Brazil
Sobre a diversificação de oferta de produtos para o mercado árabe, o presidente destacou o exemplo da produção de grão de bico, que já está sendo exportada, e o potencial de atendimento das demandas por frutas e hortaliças geneticamente adaptadas ao clima da região, onde há baixa disponibilidade de água. "O desenvolvimento agropecuário brasileiro baseado em ciência tem chamado a atenção do mundo e temos recebido árabes demandas constantes das lideeranças de vários países árabes", disse ele, referindo-se às reuniões com comitivas estrangeiras interessadas em projetos multilaterais.

Celso Moretti destacou ainda que, entre as iniciativas em desenvolvimento na Embrapa, para atender a orientação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) voltadas à internacionalização e o investimento em estratégias voltadas ao mercado externo, a África também está entre as prioridades. "Precisamos ser mais agressivos na presença brasileira naquele continente", comentou. "Houve um recuo nos últimos anos, por isso é preciso retomar os contatos, em especial na África subsaariana, uma região que está no meio do caminho entre o Brasil e o seu principal mercado que é a China." Com 60% das terras agricultáveis disponíveis do mundo, a África detém mais de 400 milhões de hectares de savana, duas vezes mais que a área do Cerrado brasileiro.

O presidente lembrou que, durante as visitas que fez aos Emirados Árabes, teve a oportunidade de conhecer projetos desenvolvidos pelo país no continente africano. "Eles são, depois da China, os que atualmente mais investem no desenvolvimento da agropecuária africana", comentou, destacando que a maior parte da produção agrícola está localizada no cinturão tropical do continente, onde o Brasil tem experiência para desenvolver novos projetos de interesse mútuo.

Segundo ele, Embrapa e iniciativa privada -- em especial, do setor de máquinas e de genética animal e vegetal -- têm muitas oportunidades a serem exploradas no continente. Moretti destacou ainda que este ano, apesar da pandemia do novo coronavírus, o Brasil está colhendo uma safra recorde, de mais de 250 milhões de toneladas. "É um fato extremamente positivo sobretudo num momento como o que vivemos", completa.

Ampliação da agenda de exportação
Além dos entrevistados, o evento teve a participação a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, que, em vídeo gravado, reforçou o interesse na cooperação tecnológica com os Emirados Árabes, voltada à abertura de mercados do agronegócio brasileiro. "Tivemos a oportunidade de conhecer e interagir com os nossos parceiros estrangeiros, para compreender o que realmente é de interesse para ambos os países e, com isso, alguns mercados se abriram também como a Arábia Saudita e o Kuwait, além do Egito, no setor de carnes e lácteos", completou.

Dados da Secretaria de Comércio Exterior, revelam que entre 2002 e 2012, houve um aumento das exportações brasileiras para os países árabes da ordem de 575%, passando de 1,6 bilhão de dólares para 10,8 bilhões, o que torna os torna o segundo maior destino dos produtos nacionais, em especial frango, carne, açúcar, gelatina de origem animal, café, amendoim, soja, milho, ovos e sucos de frutas.

De acordo com Rubens Hannun, presidente da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, o relacionamento histórico entre o Brasil e os países árabes, que começou ainda nos anos 70, mesmo consolidado, pode ainda oferecer novas oportunidades. "Existe reciprocidade entre as nações, por isso há muito com o que contribuir uma vez que dispomos de recursos naturais, tecnologia e conhecimento e eles têm recursos financeiros", comentou.

A internacionalização de empresas e projetos estratégicos na área de segurança alimentar, segundo ele, são áreas com as quais tem trabalhado o primeiro escritório internacional da Câmara em Dubai, Emirados Árabes, inaugurado em fevereiro de 2019. Outros dois serão inaugurados no Cairo, Egito, e em Riad, capital da Arábia Saudita. Destacou ainda como desafios a serem enfrentados a urgência de definição de rotas marítimas entre o Brasil e os países árabes e a agilidade em processos de exportação (certificação digital), que vai representar a redução de prazos e a garantia de acessibilidade de preços dos produtos.

Durante o evento, a importância da parceria brasileira com os países árabes também foi destacada por Ricardo Santin, diretor-executivo da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA): "Somos o maior exportador de aves e carne halal do mundo e a pandemia acabou vindo ajudar esse mercado, porque alguns países árabes estavam endurecendo suas medidas por questões políticas, mas o Brasil é reconhecido como um grande parceiro", disse ele, lembrando que só com a Arábia Saudita foram exportados o equivalente a 384 mil caminhões de carne de frango para alimentar a população.

Pesquisa sem contingenciamento
Para deputado Alceu Moreira (MDB-RS), presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), do ponto de vista político, as necessidades de diversificação de produtos para os países árabes são muito grandes. "Mais de 2 bilhões de pessoas se alimentam por essas decisões e isso transcende os 22 países árabes", argumenta ele. "Tem havido uma forte articulação nesse sentido com grande atuação da ministra Tereza Cristina para conseguir mais abertura para os produtos brasileiros".

Moreira destacou que a relação entre os países envolve outros setores, além do comércio. "O Egito, por exemplo, tem todo interesse em estabelecer parcerias na área da pesquisa, por isso o valor da Embrapa é muito importante -- é preciso sair da relação de fornecedor para cliente. Não pode ser só isso", alerta. Segundo ele, os países árabes podem investir em várias áreas, mas é preciso que o Brasil consiga estar estruturado com tecnologia, inovação e conectividade. "A parte política é abrir oportunidades para esses setores de forma mais fidelizada e definitiva", disse.

O deputado chamou a atenção ainda sobre o reaquecimento da economia, que só pode acontecer, na sua opinião, pelo agro. "É preciso tratar da pesquisa, por isso não dá para contingenciar o orçamento da Embrapa", ressalta, lembrando que o agronegócio brasileiro é estratégico e a segurança alimentar é o que chamou de moeda política. "O recurso público deve ser aplicado no local correto".

Outra defesa da diversificação de produtos brasileiros com foco no mercado árabe foi feita por Marcos Jank, pesquisador de Agronegócio Global, no Insper, que definiu como um desafio para a pauta de exportações para a região. "Vendemos basicamente açúcar, frango, carne bovina, milho e soja e animais vivos. Muito concentrada em poucos produtos", avaliou. Pescados, como alternativa de exportação, e alimentos processados, segundo ele, já estão entrando em outros mercados, tentando reduzir as barreiras protecionistas.

O evento também contou com depoimentos gravados de Evaristo de Miranda, chefe geral da Embrapa Territorial, que falou sobre as influências da cultura árabe no Brasil; de Tamer Mansour, secretário-geral da Câmara Árabe; de Jacyr Costa Filho, presidente do Conselho Superior do Agronegócio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Cosag/Fiesp); de Silvia Helena Galvão de Miranda, professora da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (Esalq/USP) e vice-coordenadora do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), e de Khaled Hanafy, secretário-geral da União de Câmaras Árabes.

Fonte: Udop, com informações da Embrapa (texto extraído do portal Notícias Agrícolas

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